ORDEM DA VISITAÇÃO DE SANTA MARIA

Vida contemplativa Clausura Papal
 
 

450 Anos do Nascimento de São Francisco de Sales

Homilia proferida por Dom Vitório Pavanelle, SDB, Arcebispo Emérito de Campo Grande, MS - Domingo, dia 20 de agosto de 2017, festa da Assunção de Nossa Senhora e antecipação da festa do 450º. Aniversário de nascimento de São Francisco de Sales, celebrada na Capela do Mosteiro da Visitação de Santa Maria - Vila Mariana, São Paulo.

“(...) Queridos irmãos e irmãs devotos de São Francisco de Sales, amanhã celebraremos 450 anos do nascimento de São Francisco de Sales. Sendo dia ferial, com dificuldade de reunir a vós todos na santa Eucaristia, a Madre Superiora achou por bem celebrar no dia de hoje os 450 anos do nascimento deste grande santo, verdadeiro luminar da Igreja para todos os tempos, sempre atual e mestre para a nossa fé cristã e vida apostólica.

Hoje celebramos a solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao céu. Sendo solenidade, não celebramos a Missa em louvor de nosso Patrono e Padroeiro. Não faz mal. Ele, do céu, se alegrará imensamente, porque a devoção para com Nossa Senhora muito lhe significou em sua vida, desde o nascer, sendo consagrado a Nossa Senhora, até o morrer, vivendo plenamente as virtudes de Maria que o fizeram grande diante do Senhor e dos homens. Maria ocupa um lugar todo especial na vida de São Francisco de Sales, tanto assim que, ao fundar a ordem das irmãs a serviço da caridade, quis dar-lhe o nome significativo da Visita de Maria. Desse modo, ele nos lembra que a verdadeira devoção para com a Mãe de Deus, segundo Santo Agostinho, é imitar as virtudes e exemplos de quem cultuamos em vida.

Nossa Senhora, na infinita alegria da sua glorificação em corpo e alma no céu, não ficará menos celebrada, se fizermos memória, hoje, do santo que tanto a amou e procurou imitá-la em suas virtudes.

A personalidade de Francisco de Sales, por qualquer faceta que o contemplemos é de riqueza inexaurível. Se olharmos pelo aspecto humano, ele foi considerado o maior gentleman do século. Francisco de Sales soube praticar as virtudes cardeais, pelas quais, segundo o filósofo Platão, quem as cumprir com perfeição, se tornará homem com H maiúsculo. Foi prudente à perfeição, analisando sempre o resultado das suas ações, quer boas ou deficientes. Diante da prudência nunca perdeu o equilíbrio nas suas mais heroicas ações, sobretudo nos momentos árduos e desafiadores, a ponto de dar-lhe fortes dores de cabeça, mas nunca perder a paciência.

Foi justo, não cedendo a calúnias feitas a amigos diante do príncipe de Saboia, defendendo-os com todos os argumentos de que podia dispor. Convenceu e libertou o seu amigo Antonio Favre, quase irmão, da desonra que lhe podia destruir sua vida.

Foi forte no lutar contra toda forma de mediocridade que pudesse empanar as sua virtudes humanas e cristã.

Soube usar da temperança para ser sempre comedido sem tudo. Podemos dizer, sem medo de errar, ele foi o santo mais comedido que podemos conhecer, sem nunca perder o autodomínio de si.

Platão ensinava que as virtudes cardeais formam o homem verdadeiro. Infelizmente não conseguia praticar o que propunha porque lhe faltava correspondência à graça divina, a qual ele desconhecia. Francisco de Sales, ao contrário, sabia que, junto com a busca e o cultivo das virtudes humanas para ser o verdadeiro homem, segundo a estatura de Cristo, como nos exorta São Paulo, ele precisava das graças de Deus. Essas nunca lhe faltaram e delas soube aproveitar em abundância em todos os momentos de sua vida.

Se contemplarmos São Francisco de Sales, o pastor solícito junto ao seu povo como padre e bispo, temos nele um modelo cabal de perfeição e imitação ainda para os dias de hoje. Soube amar o povo que lhe era confiado de forma perfeita e heroica, não somente os bons que lhe davam muita alegria, mas sobretudo os adversários e os hereges que o ameaçavam a cada momento, inclusive ameaças contra a sua vida: “Enquanto me arrancares o olho esquerdo, quero continuar a amar-te com o olho direito”. Eis a resposta a um herege que o injuriava ameaçadoramente.

Quanto amor às suas ovelhas! “uma alma vale uma diocese”, dizia ele e por causa dessas ovelhas passou pelos mais duros sacrifícios, a fim de que nenhuma ficasse privada da graça de Deus e do amor do Senhor, através do seu coração humano cheio da graça do Espírito Santo.

Nunca perdeu a paciência, por maiores que fossem os desaforos que lhe causassem. Sabia valorizar a todos, ajudando-os na medida do possível e além do possível. Despojava-se de tudo, até dos seus próprios bens para que ninguém pudesse sofrer.

Para atender melhor o próximo, especialmente as mulheres pobres e abandonadas, fundou as Irmãs da Visitação, para como Maria levassem o amor de Deus, a graça de fé, mediante a alegria e a instrução adequada.

Dotado de inteligência extraordinária, nunca fez uso dela para a sua vaidade ou caprichos. Sempre quis colocar todos os seus dotes e talentos a serviço da Igreja. Viu que a melhor forma era viver a doação plena da sua vida como sacerdote. Venceu, não sem poucas dificuldades, a vontade férrea do pai que o queria grande no Reino como jurisconsulto e famoso entre os nobres da corte. Tudo renunciou para levar uma vida muito pobre e desprendida como sacerdote e muito mais como bispo.

Incansável no escrever e ensinar. Milhares são as cartas que escreveu, das quais formam um rico tesouro para todos nós, quando queremos entrar no âmago da sua alma. Amava ensinar escrevendo, deixando-nos obras primas como a Filoteia e o Teótimo, além de outras obras copiadas por seus e suas ouvintes.

Quando pensamos num santo, logo lhe atribuímos um epíteto. De São Francisco de Sales, logo pensamos no santo da bondade, do amor, da paciência e do amor imenso para com Deus e da doçura, como gostou dizer dele o Papa Pio XI. Soube mergulhar tão profundamente na ciência eminente de Nosso Senhor Jesus Cristo, que foi declarado Doutor da Igreja pelo Papa Pio IX, proclamando-o qual rio de água viva a irrigar os campos da Igreja”. O Papa Paulo VI chamou-o “Doutor do amor”’.

Nós, filhos de Dom Bosco, copiamos o seu nome para levar aos jovens as grandes virtudes desse santo. Para trabalhar com a juventude Dom Bosco sabia que precisava imbuir os filhos de muita e grande paciência, bondade e doçura. Ninguém melhor do que São Francisco de Sales ser exemplo dessas virtudes. Por isso, quis que ele fosse o nosso patrono para revelar principalmente aos jovens o grande amor de Deus, através dessas virtudes vividas em heroicidade pelo Bispo de Genebra.

Nós, salesianos de Dom Bosco, não podemos deixar de continuar a exaltar a vida e santidade de São Francisco de Sales como fazia Dom Bosco no seu tempo junto aos seus caros meninos e salesianos. Mesmo, depois de Dom Bosco canonizado, fomos instados pelos nossos superiores maiores de que cultivando e expandindo a devoção ao nosso Santo Pai e Fundador, nunca deixássemos de exaltar o santo cujo nome carregamos na nossa vida religiosa, não somente como uma marca de fantasia, mas muito mais como mística de vida, copiando de São Francisco de Sales o seu modo de viver, de praticar o Evangelho e doação plenas aos jovens, como São Francisco se entregou ao povo da usa diocese e tantos outros a quem o Espírito Santo o enviava.

Pio XI em sua encíclica “Rerum Omnium Perturbationem”, pede aos bispos do mundo inteiro e aos sacerdotes que divulguem muito a devoção a São Francisco de Sales por ser modelo das virtudes fundamentais de um pastor de almas vivias e testemunhadas por ele.  Penso que se torna um mandamento para nós salesianos essa tarefa de divulgar a devoção desse santo, sobretudo falar muito da sua doutrina e trabalho pastoral.

Felizes as Irmãs visitandinas pelo grande Pai que as gerou, pelas quais, São Francisco, sem abandonar a solicitude pelo povo que desposou como bispo, soube encontrar tempo precioso para estar com elas, ensiná-las a amarem sempre mais a Nosso Senhor Jesus. Graças a esse tempo de presença de São Francisco de Sales com elas e graças à inventiva da co-fundadora, Santa Joana de Chantal, fazendo que irmãs copiassem tudo o que o Fundador e Pai lhes falava, temos hoje a riqueza dos ensinamentos posteriores à sua vida dos assim chamados “Entretenimentos” que somados à Filoteia, ao Teótimo e às milhares de cartas, temos também para beber desta rica espiritualidade cristã que os séculos não serão suficientes para haurir desta fonte toda a sua doutrina e ensinamentos.

Por isso, hoje, queremos estar unidos a estas queridas irmãs visitandinas, objeto do puro e grande amor do coração de São Francisco de Sales e de Santa Joana de Chantal e, como salesianos de Dom Bosco, louvar juntos ao Senhor, com a Santíssima Virgem Maria, pelo grande luzeiro que o Espírito Santo suscitou para iluminar a Igreja e todo o mundo na pessoa de São Francisco de Sales.

A Devoção aos santos consiste na imitação das suas virtudes. Que sua vida nos envolva no cultivo das virtudes que mais precisamos desenvolver para testemunhar o amor de Deus, em Cristo, na Igreja de Hoje, para fazer do mundo uma comunidade de amor, de justiça e fraternidade e da Igreja uma comunidade de santos e santas para converter os mais transviados e viver a verdadeira comunhão dos santos. Amém.


 

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